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Karina Gama: produtora do 'Dark Horse' foi promotora de literatura cristã, fez campanha para Mário Frias e comanda contrato de Wi-Fi com a Prefeitura
01/06/2026
(Foto: Reprodução) A dona do Instituto Conhecer Brasil (ICB), Karina Ferreira Gama, e o deputado federal Mario Frias (PL), no dia da diplomação dele como deputado federal
Reprodução/Redes Sociais
Alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Civil na manhã desta segunda-feira (1°), a empresária Karina Ferreira da Gama já foi promotora de literatura cristã, participou da campanha do deputado federal Mário Frias (PL) e hoje produz o filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), além de manter contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo.
Em um prazo de apenas dois anos, a ONG fundada por ela – o Instituto Conhecer Brasil (ICB) – passou de uma pequena entidade que realizava eventos de literatura cristã com ajuda de emendas de vereadores evangélicos de São Paulo para dona de um contrato milionário de instalação de serviço de wi-fi gratuito na cidade de São Paulo.
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Criado em 1990, o ICB de Karina Gama começou a assinar seus primeiros contratos com a prefeitura em 2018. Um dos primeiros eventos foi o "Encontro Literário IDE", de escritores gospel, entre 27 e 30 de setembro daquele ano, que teve um contrato de R$ 2,5 milhões assinado com a Secretaria Municipal da Cultura.
A realização do encontro teve ajuda dos vereadores da época, Souza Santos (Republicanos), Milton Leite (União Brasil), Noemi Nonato (Republicanos) e Atílio Francisco (Republicanos), que destinaram, respectivamente, emendas de R$ 1,33 milhão, R$ 500 mil, R$ 270 mil e R$ 400 mil para que o evento acontecesse no Auditório Elis Regina, no Anhembi, Zona Norte de São Paulo.
Nos anos seguintes, os repasses da prefeitura para a ONG foram mais esparsos e, segundo o site da Transparência da Prefeitura de São Paulo, em 2023, o valor de pagamentos para a ONG foi de apenas R$ 500 mil.
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Só que em junho de 2024, pouco meses antes da eleição municipal que reelegeu o prefeito Ricardo Nunes (MDB), a entidade de Karina foi a única empresa que apareceu para atender o chamamento público da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia para a instalação de 5 mil pontos de wi-fi nas periferias da cidade.
Em vez de escolher uma empresa de internet especializada no assunto, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) optou por repassar o contrato de R$ 108 milhões para uma empresa que, até então, não tinha nenhuma experiência anterior nem com instalação desse tipo de tecnologia, tão pouco tinha contratos de inserção em projetos na periferia da capital paulista assinados com a gestão municipal.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que o chamamento ficou aberto por 30 dias (leia mais abaixo).
Após vencer o certame de candidato único e abocanhar o contrato anual de R$ 108 milhões, a ONG terceirizou os serviços de instalação desses equipamentos e contratou várias pequenas empresas menores que costumam fornecer sinal de internet em favelas e áreas periféricas da cidade.
Segundo o site da Transparência da Prefeitura de SP, no primeiro ano de vigência do contrato, 2024, a ONG recebeu pelo menos R$ 40 milhões da gestão Nunes. O contrato foi assinado no meio daquele ano.
O acordo era que a empresa instalasse os 5 mil pontos de internet no período de, no máximo, 12 meses. Só que a empresa não conseguiu cumprir a meta e o contrato passou por três aditivos contratuais de data, que esticaram o prazo de instalação até 2029.
O valor anual de R$ 108 milhões passou para R$ 157 milhões, segundo a Polícia Civil de São Paulo, que cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados à Karina e sua ONG, além da Secretaria de Inovação e Tecnologia da gestão Nunes nesta segunda (1°).
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Até o momento, apenas 3.200 pontos foram instalados na cidade. A promessa é a de que a meta seja cumprida até o final deste ano.
A investigação da Polícia Civil foi aberta a pedido do Ministério Público. No inquérito da operação desta segunda (1°), a promotora Marina Pedersolli diz que o contrato com a gestão Nunes tem indícios de "possível direcionamento do chamamento público, ausência de capacidade técnica da entidade contratada, suposto sobrepreço nos valores pagos pela Administração Municipal, antecipação de repasses públicos e pagamentos por serviços supostamente não executados".
"A autoridade policial também menciona suspeitas de pulverização dos recursos públicos por meio de subcontratações com empresas privadas, além de possível utilização de valores oriundos do contrato público para financiamento de produção cinematográfica vinculada à investigada Karina Gama", escreveu Pedersolli.
A ONG de Karina e a produtora do filme Dark Horse (Azarão, em português) - que fala da vida do ex-presidente Jair Bolsonaro – funcionam no mesmo endereço na Avenida Paulista, Centro de SP.
Os registros oficiais que indicam que a produtora do filme sobre Bolsonaro e a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) funcionam no mesmo endereço.
Reprodução/Jucesp e Rede Sim/Receita Federal
O local também é sede da empresa GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural Ltda, que também pertence à Karina Gama.
Campanha para Frias
Em 2022, a GO7 ganhou R$ 54 mil para fazer a campanha do deputado federal Mário Frias (PL), segundo a prestação de contas dele na Justiça Eleitoral. Frias é o roteirista e produtor-executivo do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
No ano de 2023, logo após tomar posse, Frias destinou R$ 2,5 milhões em emendas parlamentares de sua autoria para que a ONG de Karina Gama aplicasse os recursos federais em projetos sociais no interior de São Paulo.
Karina da Gama aparece nas redes sociais fazendo campanha para o deputado Mário Frias (PL), em outubro de 2022.
Reprodução/Redes Sociais
O que disse o prefeito de SP
Em entrevista nesta quinta-feira (1°), o prefeito Ricardo Nunes disse que o chamamento público para a escolha da ONG “ficou aberto durante trinta dias”.
“Não é comum. Não é comum um chamamento ficar aberto durante trinta dias. Durante trinta dias não houve nenhum pedido de impugnação, nenhum questionamento, nenhuma outra entidade quis participar. Foi feito toda uma pesquisa de preço, desse terceiro processo que eu te falei, ficava muito mais alto, ficava dois mil e pouco cada ponto. Esse a gente tá pagando hoje R$ 1.270, R$ 1280, se não me engano”, afirmou o prefeito da capital.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB).
Divulgação/Secom/PMSP
O prefeito disse que uma ONG foi escolhida para prestar o serviço porque precisava de mapeamento das comunidades carentes da cidade.
“A questão era mais ampla do que isso [do que escolher a Prodam ou uma empresa particular de tecnologia]. Era de você mapear as comunidades, fazer esse mapeamento, verificar a questão da falta de sinais daqueles locais, a vulnerabilidade daquela comunidade e instalar esses pontos de Wi-Fi nesses locais. Não é só instalar", declarou Nunes.
O que diz a Prefeitura de SP
Por meio de nota, a Secretaria de Inovação e Tecnologia disse que “colabora com investigações em andamento e segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações”.
“Todo o material requisitado na manhã desta segunda-feira já havia sido disponibilizado às autoridades e são, desde sempre, de acesso público, por meio da prestação de contas do município. A administração ressalta que o programa funciona normalmente na cidade e pode ser acompanhado em tempo real no link https://wifilivrecomunidades.org/sp”.
Segundo a prefeitura, “não houve pagamento por parte da administração para 5 mil pontos. O aditivo em questão é exclusivamente para manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados nas comunidades periféricas da cidade”.
“A prefeitura reforça que toda a prestação de contas, com documentos, notas fiscais, contratos e outras informações, está no sistema SEI, que é público. O processo passou também por acompanhamento do Tribunal de Contas do Município (TCM). A Prefeitura repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos, uma vez que o contrato do Instituto Conhecer Brasil seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade”, disse a nota.
“Vale lembrar que o chamamento público, aberto por 30 dias para qualquer entidade interessada, ocorreu em 2024, quando não havia sequer produção do filme mencionado, e o processo cumpriu todas as exigências legais. Para 2026, o custo estimado na parceria com o instituto corresponde a R$ 1.280,80 por ponto/mês, significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022, de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês”, declarou.
O que diz Karina
Em conversa com o g1 por telefone em 20 de maio, ela afirmou que desconhece as notas mencionadas nesta reportagem, "mas não tem controle se um fornecedor contratado anula uma nota. As notas fiscais do próprio instituto glosadas, fui eu mesma que apontei para a prefeitura os problemas, e eles estão sendo resolvidos na prestação de contas que estou preparando para entregar do bimestre”.
A dona da ONG informou, ainda, que o ICB e as três firmas que estão no nome dela funcionam no mesmo endereço para que possa “manter o controle sobre as empresas”.