Estatueta encontrada há 120 anos no litoral de SP ainda desafia arqueólogos; entenda

  • 19/09/2026
(Foto: Reprodução)
Estatueta encontrada há 120 anos no litoral de SP ainda desafia arqueólogos; entenda Em 1906, alguns caiçaras encontraram uma pequena escultura de pedra na região do Sambaqui do Morro Grande, em Iguape, no Vale do Ribeira. A peça chegou às mãos do naturalista Ricardo Krone, passou a ser conhecida como Ídolo de Iguape e hoje está preservada no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP). Mais de um século depois, a origem do objeto ainda é alvo de discussão. A descoberta ocorreu durante um levantamento realizado pela Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo no Rio Ribeira de Iguape. Krone ficou responsável pela parte arqueológica dos trabalhos, recebeu a peça dos moradores e passou a estudá-la a partir de sua procedência. ✅ Clique aqui para seguir o novo canal do g1 Santos no WhatsApp. 🕵🏻‍♂️ Ricardo Krone foi um naturalista alemão que viveu durante muitos anos em Iguape e atuou em diferentes áreas, como arqueologia, espeleologia, cartografia e história natural. Seus estudos contribuíram para o conhecimento da pré-história e das cavernas do Vale do Ribeira. Ricardo Krone Arquivo/Roberto Fortes Segundo o historiador e jornalista Roberto Fortes, que forneceu informações ao g1 sobre a trajetória do naturalista e a descoberta, o Ídolo foi encontrado por caiçaras da Juréia no Sambaqui do Morro Grande, situado no Rio Comprido, na atual região da Estação Ecológica da Juréia-Itatins. O episódio ocorreu durante o levantamento realizado pela comissão, quando Krone investigava os vestígios arqueológicos da região. "O Ídolo despertou o interesse de Krone pelo seu formato antropomorfo. Para ele, a peça estaria relacionada às origens do homem americano", explicou Fortes ao g1. O objeto representa uma figura humana esculpida em pedra e é classificado como um artefato antropomorfo. A peça tem cerca de 9 centímetros de altura, 8 de comprimento e 3,2 de espessura. Embora a estatueta original esteja no acervo do MAE-USP, o Museu Municipal de Iguape abriga uma réplica. A presença de uma representação humana ajuda a explicar a importância do Ídolo dentro desse contexto. O professor Paulo DeBlasis, do MAE-USP, destaca que esse tipo de peça é pouco frequente entre as esculturas associadas aos sambaquieiros. "A importância reside em sua raridade, pois são poucas as ocorrências de representações antropomorfas entre as esculturas sambaquianas", afirmou DeBlasis ao g1. O "ídolo de Iguape" representa uma figura humana esculpida em pedra e é classificado como um artefato antropomorfo. Reprodução/Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) A hipótese andina Quando Krone estudou o Ídolo, no início do século 20, o conhecimento sobre a produção artística dos sambaquieiros ainda era limitado. O arqueólogo Manoel Gonzalez explicou ao g1 que, naquele período, as pesquisas sobre as culturas andinas já haviam reunido um número maior de artefatos, enquanto as representações antropomorfas encontradas nos sambaquis eram pouco conhecidas. 🗿 Os sambaquieiros eram grupos de caçadores-coletores que ocupavam diferentes áreas do litoral brasileiro. Viviam da pesca e construíam os chamados sambaquis, sítios arqueológicos formados principalmente pelo acúmulo de conchas e outros vestígios. Entre os materiais encontrados nesses locais estão sepultamentos e esculturas de animais e, mais raramente, figuras humanas. Infográfico simula a estrutura de um sambaqui g1 Foi nesse contexto que Krone passou a comparar a estatueta encontrada em Iguape com objetos atribuídos a povos andinos. A interpretação foi apresentada no estudo "O Ídolo Anthropomorpho de Iguape — sua relação com os sambaquis e a prehistoria Brazileira", publicado em 1911. "Krone levantou a hipótese de que ocorreram trocas significativas entre as culturas, o que teria gerado o aparecimento do Ídolo de Iguape junto aos grupos de caçadores-coletores", explicou Gonzalez. Em 1998, o arqueólogo Walter Fagundes Morales publicou, na Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP), o artigo "Ricardo Krone e as pesquisas arqueológicas no Vale do Ribeira de Iguape, SP”. Ricardo Krone (1861-1917) pesquisando uma gruta calcária na região de Iporanga, no Alto Vale do Ribeira Reprodução/Redes sociais O estudo mostra que essa interpretação fazia parte de uma tentativa mais ampla do naturalista de explicar a origem dos povos sambaquieiros. Krone relacionou a estatueta e outros objetos encontrados nos sambaquis a artefatos atribuídos à cultura calchaqui e considerou a possibilidade de uma migração até o litoral brasileiro. Na visão do naturalista, esses grupos teriam perdido características culturais durante uma longa migração e, depois de se estabelecerem no litoral, recuperado parte dessas habilidades. A leitura estava relacionada às correntes evolucionistas e difusionistas que influenciavam o pensamento científico daquele período. O que a arqueologia diz hoje Atualmente, a interpretação arqueológica segue outro caminho em relação à interpretação de Krone. DeBlasis afirma que existem semelhanças entre o Ídolo e representações humanas de outras culturas, mas elas não permitem, isoladamente, estabelecer uma relação direta entre os povos que as produziram. A própria produção escultórica dos sambaquieiros contradiz a ideia de que a peça precisaria ter vindo de outra sociedade. "Hoje sabemos que essa ideia é falsa. Os sambaquianos tinham uma cultura bastante sofisticada, eram escultores de artefatos magníficos e conhecemos centenas deles", afirmou DeBlasis. A estatueta original encontra-se no acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP) Reprodução Gonzalez também considera que a origem do Ídolo é sambaquieira. Para ele, a estatueta foi produzida culturalmente pelos grupos de caçadores-coletores que ocupavam o litoral e está entre os primeiros artefatos antropomorfos estudados pela arqueologia brasileira. O arqueólogo ressalta, porém, que as representações humanas são raras quando comparadas ao grande número de esculturas zoomorfas conhecidas. É justamente essa diferença que mantém o Ídolo como uma peça particular dentro do registro arqueológico sambaquieiro. Incertezas continuam Ainda não é possível determinar com segurança o período exato de produção nem a função específica da estatueta. A possibilidade de uso ritualístico é considerada pelos pesquisadores a partir do contexto desses artefatos, mas o significado do Ídolo permanece em aberto. “Penso que conhecer mais sobre a cultura sambaquiana como um todo vai permitir colocar esse artefato em contexto e ampliar suas possibilidades interpretativas”, disse DeBlasis. Monumento do Ídolo de Iguape, em Iguape (SP) Divulgação/Prefeitura de Iguape Independentemente das hipóteses que cercam sua trajetória, a importância histórica da peça ultrapassa a discussão sobre sua origem. Até os dias atuais, o artefato permanece como um dos principais símbolos da cultura e da expressão dos povos sambaquieiros. 🗿 A cidade de Iguape (SP) também abriga um monumento em homenagem ao Ídolo de Iguape, na orla do Mar Pequeno. Esculpida em pedra gnaisse pelo artista local Yago Tauá Rodrigues, a obra pesa cerca de 12 toneladas. Na opinião do historiador Roberto Fortes, o Ídolo também passou a integrar a memória do município, mantendo uma conexão entre a cidade atual e a ocupação pré-colonial do Vale do Ribeira.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2026/09/19/estatueta-encontrada-ha-120-anos-no-litoral-de-sp-ainda-desafia-arqueologos-entenda.ghtml


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