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Em 'Noturno', serial killer ardiloso 'às vezes' reflete realidade: 'todos estamos sendo manipulados'
30/10/2026
(Foto: Reprodução) 'Noturno' reflete mundo real com serial killer ardiloso: 'Tudo é manipulador'
Mesmo uma série sobre um serial killer manipulador pode ter reflexos na realidade. É o caso do thriller "Noturno", que estreia nesta sexta-feira (30) na plataforma de streaming Apple TV, estrelado por Liev Schreiber ("Ray Donovan"), Zazie Beetz ("Atlanta") e Stephen Graham ("Adolescência").
A obra adapta o best-seller "O Homem de Areia", de Lars Kepler — pseudônimo do casal sueco Alexandra Coelho Ahndoril e Alexander Ahndoril.
Nela, investigadores fazem uma busca desesperada para encontrar as vítimas de um psicopata que aterroriza uma cidade mesmo depois de preso em uma instituição psiquiátrica.
Para os astros, é possível ver paralelos entre o mundo real e um vilão que consegue enganar as pessoas ao seu redor, mesmo quando elas sabem muito bem que ele é um criminoso maligno.
"Cem por cento, meu amigo. Cem por cento. E isso é tudo o que vou dizer. Agradeço por dizer isso", diz Schreiber, com um sorriso tímido, a princípio. Depois, ele se solta.
"Todos estamos sendo manipulados de muitas maneiras diferentes. E nem sempre é por uma pessoa. Às vezes é por uma coisa, uma ideia, um slogan, uma opinião, uma briga. Mas é tudo manipulação."
Liev Schreiber e Stephen Graham em cena de 'Noturno'
Divulgação
Silêncio e observação
Conhecido por dar vida a figuras contidas e de poucas palavras, Schreiber explica que a postura econômica de seu protagonista é fruto da própria transição que viveu na carreira.
"Passei a maior parte da vida como ator coadjuvante. Na juventude, interpretava sujeitos esquisitos, pessoas estranhas. Quando peguei um trabalho em que tinha de ser o protagonista, tentei entender o que era liderar uma produção. A conclusão mais próxima a que cheguei foi a de que o protagonista funciona como os olhos do público. A jornada do herói é a jornada de quem assiste."
"Noturno" se baseia, na verdade, no quarto volume de uma série que já conta com dez livros focados no detetive Joona Linna (rebatizado de Jonah Lynn, na adaptação ambientada nos Estados Unidos).
Produtora-executiva do projeto, Beetz admite que não sabe explicar exatamente o motivo pelo qual escolheram bem este capítulo para iniciar a transição para a TV americana.
Envolvida desde o anúncio inicial, em 2023, ela interpreta Saga, filha de criação de Jonah e agente do FBI que se infiltra na instituição onde o vilão está internado.
"Vou confessar que não li todos os dez, então não sei falar especificamente sobre isso", afirma a atriz de 35 anos.
"Foi a história que me apresentaram. Mas achei bem sucinta, com começo, meio e fim, além de um arco muito interessante. Só que não consigo comparar com os outros nove."
Zazie Beetz em cena de 'Noturno'
Divulgação
De 'Adolescência' a serial killer
O papel do vilão, que originalmente seria vivido por Tom Hardy ("Venom"), caiu nas mãos de Stephen Graham.
Criador do hit "Adolescência", o britânico podia escolher qualquer projeto da praça como próximo trabalho, mas preferiu a chance de reencontrar o diretor Tim Van Patten, com quem já havia trabalhado em "Boardwalk Empire".
"Esse foi o elemento-chave, trabalhar com o Tim de novo, que é alguém que eu adoro", conta Graham. "Mas era um roteiro ótimo. Eu li e pensei no que poderia trazer para esse papel."
Uma revelação guardada para a reta final da temporada serviu de chamariz definitivo para o ator – mas, por mais que ele não evite spoilers conhecidos pelos leitores do livro, a surpresa não será estragada aqui.
Basta dizer que "esse foi um grande atrativo. E eu só achei que era um personagem maravilhoso. Algo que eu nunca tinha feito antes".
Stephen Graham em cena de 'Noturno'
Divulgação
Sem mover um dedo
Boa parte da força da série está na economia de movimentos do vilão, trancado em uma cela de segurança máxima e capaz de apavorar sem erguer a voz nem empunhar armas. Graham credita essa tensão à direção e à expectativa construída na cabeça do espectador.
"O Tim fez você ficar com muito medo de mim sem que eu fizesse nada", brinca o britânico.
"Eu pareço que poderia arrancar a sua garganta, que é o que nós queríamos. Você acabou de me ver entrar na cabeça de alguém e ele se mata na cela vizinha à minha. Todas essas coisas se somam a esse personagem, e eu basicamente não fiz nada."
"Então, você fica pensando: 'Porra, bem, quando ele fizer algo, o que vai acontecer?'."
A cobaia dessa teia na tela é o enfermeiro Karl, interpretado por Rory Culkin ("Sinais"). Irmão mais novo dos também atores Macaulay ("Esqueceram de mim") e Kieran ("Succession"), o americano conta que garantiu a vaga no elenco justamente pela reação paralisada diante do monstro durante o teste.
"Existe esse fascínio por assassinos e pessoas terríveis, e isso se traduz no Karl", diz ele.
"Gravei meu teste na primeira cena dele, quando se prepara para conhecer Jurek e o vê pelo monitor. O que me deu o papel foi passar um tempão encarando a tela. Nem acho que meu diálogo tenha sido uma grande atuação, foi só o ato de ficar vidrado no monitor, hipnotizado por aquela criatura violenta."
Liev Schreiber em cena de 'Noturno'
Divulgação
Adaptação e fôlego
Transpor a atmosfera nórdica para o interior da Pensilvânia e esticar a perseguição ao longo de dez episódios exigiu mudanças na estrutura do livro, explica o showrunner John Hlavin.
"Quando entrei no projeto, o piloto já estava escrito e Tom Hardy não estava mais envolvido", conta o roteirista. "A questão central era como americanizar a história. Jurek fica trancado, mas Jonah opera do lado de fora. Qualquer desvio em relação ao livro se concentrou nele, porque Jonah precisava de uma motivação forte e de fôlego para empurrar a trama. Ele é o protagonista, o foco tinha que ser total nele."
Para Hlavin, o suspense só se sustentou porque o assassino enfrenta adversários à altura.
"Jurek é um sociopata que só tem a manipulação como ferramenta para tentar sair da cela", resume o produtor.
"Como Saga e Jonah são extremamente inteligentes e difíceis de enganar, ele é obrigado a elevar o nível. O legal para o público é justamente assistir a personagens capazes tentando passar a perna uns nos outros, com objetivos opostos, sem saber como alguém vai escapar inteiro dali."